Sentado estava, frente o computador: [...]
Zoada de tiro.
Oito ou nove
estampidos.
Um menino, no
esgoto, caído.
Não estava
morto,
Mas, ninguém
podia mexê-lo.
Da multidão
concentrada, alguém dizia:
– é filho de um
pai morto!
– tem apenas
quatorze anos!
Outro dizia:
– mais antes
tivesse morto!
– vivo, já não
faz falta, mesmo!
A polícia já no
local,
[aquele
alvoroço...
– ninguém pode
tocar no menino!
[e ele no esgoto...
Chegam os
repórteres e o SAMU não chega...
A multidão
concentrada fala e ri –
De si, de todos,
do menino,
Caído no esgoto,
Todo furado e
doído,
Mas, ainda vivo...
O SAMU chega,
recolhe o menino.
A multidão
observa atenta
Os primeiros
socorros...
Pairando no ar,
aquela sensação – uma reflexão:
Tudo isso é tão
banal na televisão,
Mas, terrível de
ser visto ao vivo.
Aqui na Vila é assim:
A gente vê o
muleque nascendo
O pai morrendo,
a mãe abandonando
Avó criando...
O muleque
crescendo
E a escola
abandonando
A rua ensinando
Cedo bebendo
Cedo fumando
Homem precoce
tornando...
Ferro empunhando
Vidas tirando
... a família já
não mais agüentando...
O muleque
continuando crescendo
Muito mais
trabalho dando.
O muleque, com
outros no bar, bebendo.
Um muleque-outro
do carro descendo
Empunhando uma arma,
atirando...
Os muleques
correndo...
Estampidos de
tiro soando...
O muleque no
esgoto caindo
... o muleque-outro
que tava atirando,
Com outros no
carro, fugindo...
Multidão se
formando
A polícia
chegando
O muleque
agonizando
A multidão
crescendo
Os repórteres
chegando...
O muleque ainda
agonizando,
Mas, vivo
continuando
O SAMU chegando;
– a política
pública, como sempre, ruindo –
Os primeiros
socorros realizando
Ao pronto
socorro correndo
A morte chegando
O muleque
morrendo...
O muleque está
morto! – notícia chegando.
A roda girando –
Um ciclo
terminando,
Outro, começando
[...]
08 e 09
Out. 2013.